A GUERRA ESPIRITUAL E A MITOLOGIA LUCIFERIANA ( PARTE 1)

Estou convencido de a mais infantil de todas a distorções teológicas é a Guerra Espiritual, que apesar de ser um monstro sem pé e com muitas cabeças, forma a base doutrinária de muitas igrejas e até mesmo de certas denominações. Afinal está provado pela curta historia do neopentecostalismo que em tempos de liberdade religiosa ninguém motiva mais a busca por uma igreja que a ameaçadora figura de um capeta responsabilizada por tudo de ruim que acontece no mundo apesar das pobres e concientes decisões que pessoas comuns tomam diariamente.


O que seria do neopenteconstalismo sem a Guerra Espiritual? O que seria de certas igrejas não fosse a eminente ameaça do diabo a empurrar-lhes seus membros frustrados de volta à frequência nos cultos e serviços? Esses membros que estão mantidos ali pelo medo de sair da igreja e ter que enfrentar esse diabo, que uma firme conciência de fé em Jesus Cristo provada através de frutos de arrependimento.

O movimento da Guerra Espiritual se sustenta no dualismo “bom versus mau”, herança da influência direta do Zoroastrismo sobre a igreja durante milenios, e que veio a lançar as bases para a produção da mitologia de Lucifer, um ser de poderes quase divinos e que se apresenta como o perfeito arqui-inimigo de Deus. Os versículos bíblicos usados pelos teóricos da Guera Espiritual para justificar suas fantasias são 'pescados' isoladamente de seus contextos, e não são suficientes para concluir uma dissertação bíblica, muito menos para criar uma teologia, e é exatamente por isso que o vácuo deixado pela falta de base bíblica é preenchido por superticões, lendas e muita fantasia de origem esquizofrenica causada pela Guerra Espiritual, que quando são no mesmo ambiente misturada nas crenças em curas de origem psicosomatica formam a base dos cultos cristãos de uma grande parte das igrejas neopentecostais.

Lucifer é um nome mais temido entre os adeptos da teologia da Guerra Espiritual. É comum ver o nome de Jesus ser pronunciado em vão, mas o nome Lúcifer é respeitado e temido, sua pronúncia sempre é seguida de muitos "tá amarrado" que no meio neopentecostal é o equivalente a bater na madeira* ou fazer o sinal da cruz, que são reações de um medo de origem superticiosa. É de conhecimento comum que o neopentecostais tem mais medo de uma imagem de escultura que medo de mentir. No caso da citação do nome Lúcifer a reação é bem ao estilo do “Você sabe quem!”, do Valdemort, personagem da serie Harry Potter.  Eu era adolescente quando certo grupo neopentecostal, influenciadísssimo pela Guerra Espiritual, lançou uma música de nome “o diabo tremeu” (video abaixo). Mais bizarro que fazer uma música que centraliza o diabo, é criar uma coreografia em que os crentes “tremiam” imitando o diabo da música. O mais absurdo ainda é que um mês depois que a música foi lançada começaram a surgir boatos de várias igrejas onde os crentes alegavam terem sidos retaliados pelo diabo por cantarem aquela música, o que acarretou a proibição do uso da mesmo nos "louvores", não por seu mau gosto musical, mas pelo medo de retaliação do diabo. 

Na Roma Antiga, batia-se na madeira da mesa, peça de mobília também considerada sagrada, para invocar as divindades protetoras do lar e da família.


Zoroastrismo fundamenta-se em dois polos opostos e irreconciliáveis, o bom e o mau, representado por dois deuses iguais em poder e que influenciam o mundo mortal e disputam com igualdade de força o coração dos homens. Essa religião de origem babilônica que somente veio a ter força na igreja a partir da publicação da Vulgata e veio a se cristianizar no periodo entre o primeiro concílio de Nicéia ordenado por Constantino em 325 dC e a oficialização do cristianismo em 380 dC, período em que quase todas as religiões dentro do impeiro buscaram se “adaptar” à nova religião do estado, quando até a estátua de Jupiter foi rebatizada para estátua de Pedro. Entre as religiões que ainda eram praticadas pela elite romana e ainda não encontrava seu caminho ao cristianismo estava o Zoroastrismo. A razão para essa dificuldade era que o Antigo Testamento e a cultura hebraica não são dualistas, ou seja o mau não era personificado e nem representava uma ameaça para o bem, mas tudo estava debaixo do domínio e controle de um Deus soberano que segundo Isaías 45:7 poderia dizer “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mau; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.” Ora, um acusador dos homens, debaixo do domínio e controle de Deus, conforme o livro de Jó 2:6  “E disse o Senhor a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida.” era um conceito inaceitavel para a mente grega, e muito menos ainda para os Zoroastrismo, e não lhes servia ao propósito. Faltava-lhes encontrar na Bíblia um ser independente de Deus, que lhe fosse à própria antítese, um inimigo tão poderoso a ameaçar-lhe o trono, personificando o mau numa eterna luta contra o bem, base do Zoroastrismo, para que esse pudesse co-existir fundido e imcubado na fé Cristã.

A oportunidade veio em 382 dC por ocasião das traduções feitas por Eusebius Sophronius Hieronymus, ou São Jeronimo, dos textos do Antigo Testamento para o latim, então chamados textos latinos e que mais tarde se tornaram parte final da versão da Bíblia conhecido como a Vulgata. Jeronimo não era profundo conhecedor da cultura hebraica, menos ainda, da cultura mesopotâmia e seu conhecimento do hebraico era considerado limitado, razão pela qual ele sempre recorria a Septuaginta em suas dúvidas de tradução. Não se sabe ao certo se por sua limitação na língua hebraica ou influência teologica dos zoroastristas cristãos convertidos pela força da lei que a palavra Lúcifer foi por ele introduzida na suas traduções do livro de Isaias 14:12, que por sinal é o trecho das escrituras que, diferente da regra, é o mais modificado em toda a historia das traduções bíblicas, justamente para justificar teologicamente a mitologia de Lucifer.

O que sabemos é que Lucifer, era somente lucifer com “L” minusculo e não um nome próprio “quomodo cecidisti de caelo lucifer qui mane oriebaris corruisti in terram qui vulnerabas gentes” e se tratava de uma expressão de louvor aos reis e não de uma pessoa ou título. No original hebraico lê-se “הֵילֵ֣ל בֶּן־שָׁ֑חַר | hêlēl ben-šāḥar” Que coíncide com a Septuaginta, “Como caíste estrela do dia, quando te levantavas pela manhã” que é a intepretação natural para os hebreus contemporaneos de Isaias.

Segundo o contexto histórico era de senso comum na mesopotania que reis recebessem de um deus ou deuses seu direito de reinar, de forma que quem quisesse ser rei que obtivesse sua ordenação do deus da nação, e sem essa não haveria direito moral para o trono. Eram os sacerdotes que ordenavam os reis, e estes recebiam títulos e louvores que os ligavam à divindade, e um desses títulos comumente usado na mesopotamia era “estrela da manhã” que se referia ao planeta Venus, que aparece no horizonte minutos antes do nascer do sol, sendo então popularmente conhecida como “a estrela que traz a luz (do sol)” ou “estrela da manhã” sendo em diversas culturas mesopotamias o deus representado no Sol, o rei era aquele que traria a divindade ao povo. De Sargon até Alexandre o Grande, muitos reis vieram a receber o título de 'estrela da manhã'.

Estrela da manhã ou lucifer, é o planeta Venus visto logo antes do amanhacer na mesopotamia.

A tradução de 'estrela da manhã' pode ser explicada afirmando que lucifer era o nome do planeta Venus no latim, o que é verdade, porém não explica por que Jeronimo traduziu a palavra “manhã” por lucifer no livro de Jó 11:17 “Et quasi meridianus fulgor consurget tibi ad vesperam; et cum te consumptum putaveris, orieris ut lucifer.” Que em portugues seria “E, como se ao meio-dia, se levantará para ti às trevas; e quando pensar-te consumido, te subirá o dia como lucifer.” Há porém outros versos da vulgata que traduzem o termo “estrela da manhã” ou Venus, por ‘lucifer’ e ‘luciferum’ em Salmos 110:3 e Jó 38:32, sendo que algumas traduções fazem uma referência à contestalação de Mazarott, conforme alguns estudiosos, era uma forma genérica de se referir ao planeta Venus e estrelas ao derredor.

“Et quasi meridianus fulgor consurget tibi ad vesperam; et cum te consumptum putaveris, orieris ut lucifer.” (Jó 38:32)

“Tecum principium in die virtutis tuæ in splendoribus sanctorum: ex utero, ante luciferum, genui te.” (Salmos 110:3) 

Outra teoria, e por sinal a mais plausível entre todas, é que influencia para a personificação da expressão 'estrela da manhã' no personagem Lucifer tenha vindo da antiga mitologia cananéia, onde 'estrela da manhã' era um dos nomes do deus, Attar, que ao tentar roubar o trono de EL Baal, o deus das montanhas do Norte, e, encontrando resistencia, foi incapaz de fazê-lo, e como consequencia desceu para governar o submundo. No caso da lenda cananita em suas várias versões, a estrela da manhã se opõe ao Sol e é por ele derrotado todas as manhãs, quand a luz do Sol ofusca a luz de todas as outras estrelas, inclusive a mais brillante delas, no caso, Venus.

Se a introdução da palavra lucifer na bíblia foi uma infeliz casualidade ou um ato intencional não está claro todavia, o que sim está claro é que lucifer, se tornou Lucifer, em um nome próprio, vindo então a se tornar a figura que faltava para a plena personificação do deus-mau, elemento fundamental na fé Zoroastrisca e na Guerra Espiritual, um ser que age independentemente de Deus, opondo-se a Ele como inimigo, sendo dessa forma extremamente mais poderoso que o limitado 'HaSatan', o acusador, descrito no Antigo e no Novo Testamento, e comumente traduzido como satanás.


conceito de Lucifer ensinado pelo movimento da Guerra Espiritual veio a evoluir ao longo dos séculos a partir de influências do Zoroastrismo. Os antigos hebreus, os profetas e os apostolos não acreditavam em nenhum ensino correspondente. 

Na próxima parte planejo expor a influência do mormonismo nas interpretações de Isaias 14 e Ezequiel 28 e seu papel no desenvolvimento do mitologia de Lucifer e as corretas interpretações de 2 Pedro 1:19 e Apocalipse 22:16.

Wesley Moreira

PS. Eu creio que há um satanás, mas a Bíblia não me permite crer no Lucifer da Guerra Espiritual e nas supertições criadas em volta de sua figura.