O JEJUM DE DANIEL E NOSSA MEDIOCRE TEOLOGIA


“Consertamos qualquer coisa, mas bata na porta pois a campainha esta quebrada” aviso escrito à mão e pregado na porta de uma loja de consertos gerais aqui perto de minha casa é uma “metafora viva” daquilo que a teologia tem se tornado na igreja.

“Nunca exponha o que há de errado nas igrejas”, foi o bem intencionado, porém anti-bíblico, conselho de um pastor amigo a mim. Seguissem os escribas o conselho de meu amigo não saberíamos hoje das mentiras de Abrãao, das covardias de Pedro e do adultério e assassinato cometidos por Davi, para nominar somente alguns. Não teriamos hoje os livros dos profetas que tinham como alvo maior o templo, os sacertodes, e os reis, antes mesmos que os inimigos do Reino de Israel. Quem é honesto intelectualmente sabe que a Bíblia é um registro e exposição dos escandalos do “Povo de Deus”. Resistir em denunciar os escandalos é resistir ao próprio Espírito Santo que inspirou as escrituras sagradas.  Se os fariseus e saduceus pecaram contra Jesus por super-zelosos, por nossa vez pecamos contra Ele por relaxados e coniventes com o pecado.

Na atualidade, um bom teólogo se dedica mais em tentar desfazer doutrinas que em firma-las, dado o grande número de indoutrinação e introdução de ensinos e liturgias estranhas que rapidamente caem no gosto popular. Um desses modismos que se tornou uma doutrina é o assim chamado “Jejum de Daniel” que de jejum não tem absolutamente nada.

O QUE É O JEJUM BÍBLICO?
O jejum ensinado na igreja é uma infantil “greve de fome” contra Deus, onde o praticante permanece sem comer, como aquela criança mimada que “engole o fôlego” diante dos pais para ter sua vontade atendida.

Na cultura judaica, de pensamento concreto, cada ato que causava repercussão pública relatado na Bíblia possui mais que seu simples significado literal e carrega uma manifestação simbólica aos demais entre o povo. O ato de comer era sinônimo de alegria, que amplificada e compartilhada socialmente se tornava em uma festa. Quem estava em tristeza profunda o demonstrava através do jejum, que era o culturamente oposto da festa. Outras manifestações para a sociedade que, combinadas com o jejum eram interpretadas como sinal de vergonha, desespero, humilhação, protesto e luto tais como sentar no chão, andar nú, ter a cabeça inclinada sobre o chão, rasgar as vestes, raspar a barba, raspar a cabeça, assentar-se sobre cinza ou pó da terra, colocar cinzas ou pó da terra sobre a cabeça, permanecer deitado no chão sobre cinzas, vestir-se de saco de estopa, eram atos comumentes praticados por pessoas que desejavam se humilhar diante de seu credor, pedir misericorida aos pais, demonstrar arrependimento para a comunidade, tristeza de um marido traído, tristeza de uma viúva, luto pela morte de um relativo, enfim, pessoas escolhiam humilhar-se diante da sociedade e de Deus em busca de perdão, misericórdia ou em luto. Portanto o Jejum era uma demonstração social de dor e arrependimento quase sempre combinado com uma outra manifestação. Nada poderia ser mais claras que as palavras de Jesus aos discípulos de João relacionando o Jejum com o luto pela retirada do noivo:

Então os discípulos de João vieram perguntar-lhe: "Por que nós e os fariseus jejuamos, mas os teus discípulos não? " Jesus respondeu: "Como podem os convidados (da festa de bodas) do noivo ficar de luto enquanto o noivo está com eles? Virão dias quando o noivo lhes será tirado; então jejuarão. Mateus 9:14-15

Mas se Jejum está relacionado com tristeza e arrependimento por que em Mateus 6:16 Jesus nos diz para não nos mostrar “contristados"? Jesus na verdade disse para não nos mostrar "contristados como os hipócritas" durante o Jejum, mas sim "contristados diante de Deus". O problema abordado por Jesus era o ato de "desfigurar os rostos para serem vistos pelos os homens", e não a tristeza em si. Alguns dos fariseus e saduceus se dedicavam a aparecerem tristes e cabisbaixos pelas praças simulando estar intercedendo pelo arrependimento do povo e libertação da nação de Israel do domínio romano, quando em realidade buscavam ser considerados espirituais e santos pela pessoas da comunidade que os “consolava” com boas ofertas. Foi essa atitude que Jesus condenou.

Para ver a força do jejum na cultura judaica bastaria observarmos o jejum nacional do Yom Kippur, mas para fins didáticos vamos aos exemplos bíblicos da relação entre jejum e outras manifestações de arrependimento e humilhação. Por favor leia pelo menos o que estiver em negrito:

Gênesis 37:34 - Então Jacó rasgou as suas vestes, e pôs saco sobre os seus lombos e lamentou seu filho por muitos dias. Ester 4:1 - 4 Quando Mardoqueu soube tudo quanto se havia passado, rasgou as suas vestes, vestiu-se de saco e de cinza, e saiu pelo meio da cidade, clamando com grande e amargo clamor; (...) Em todas as províncias aonde chegava a ordem do rei, e o seu decreto, havia entre os judeus grande pranto, com jejum, e choro, e lamentação; e muitos se deitavam em saco e em cinza. Quando vieram as moças de Ester e os eunucos lho fizeram saber, a rainha muito se entristeceu; e enviou roupa para Mardoqueu, a fim de que, despindo-lhe o saco, lha vestissem; ele, porém, não a aceitou.Jó 16:15 - Sobre a minha pele cosi saco, e deitei a minha glória no pó. Jó 2:8 E Jó, tomando um caco para com ele se raspar, sentou-se no meio da cinza. Isaías 15:3 - Nas suas ruas cingem-se de saco; nos seus terraços e nas suas praças todos andam pranteando, e choram abundantemente. Isaías 32:11 - Tremei, mulheres que estais sossegadas, e turbai-vos, vós que estais tão seguras; despi-vos e ponde-vos nuas, e cingi com saco os vossos lombos. Isaías 37:1 - Tendo ouvido isso o rei Ezequias, rasgou as suas vestes, e se cobriu de saco, e entrou na casa do Senhor. Isaías 37:2 - Também enviou Eliaquim, o mordomo, Sebna, o escrivão, e os anciãos dos sacerdotes, cobertos de saco, a Isaías, filho de Amoz, o profeta,  Isaías 61:3 - a ordenar acerca dos que choram em Sião que se lhes dê uma grinalda em vez de cinzas. Jeremias 4:8 - Por isso cingi-vos de saco, lamentai, e uivai, porque o ardor da ira do Senhor não se desviou de nós.Jeremias 6:26 - filha do meu povo, cingi-te de saco, e revolve-te na cinza; pranteia como por um filho único, em pranto de grande amargura; porque de repente virá o destruidor sobre nós. Jeremias 48:37 Pois toda cabeça é tosquiada, e toda barba rapada; sobre todas as mãos há sarjaduras, e sobre os lombos sacos. Jeremias 49:3 - Uiva, ó Hesbom, porque é destruída Ai; clamai, ó filhas de Rabá, cingi-vos de sacos; lamentai, Lamentações de Jeremias 2:10 - Estão sentados no chão os anciãos da filha de Sião, e ficam calados; lançaram pó sobre as suas cabeças; cingiram sacos; as virgens de Jerusalém abaixaram as suas cabeças até o chão. Ezequiel 27:31 - e se farão calvos por tua causa, e se cingirão de sacos, e chorarão sobre ti com amargura de alma, com amarga lamentação. Isaías 58:5 - Seria esse o jejum que eu escolhi? o dia em que o homem aflija a sua alma? Consiste porventura, em inclinar o homem a cabeça como junco e em estender debaixo de si saco e cinza? chamarias tu a isso jejum e dia aceitável ao Senhor? Isaías 52:2 - Sacode-te do pó; levanta-te, e assenta-te, ó Jerusalém; solta-te das ataduras de teu pescoço, ó cativa filha de Sião. Daniel 9:3 - Eu, pois, dirigi o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, e saco e cinza. Joel 1:8 - Lamenta como a virgem que está cingida de saco, pelo marido da sua mocidade. Joel 1:13 - Cingi-vos de saco e lamentai-vos, sacerdotes; uivai, ministros do altar; entrai e passai a noite vestidos de saco, ministros do meu Deus; Amós 8:10 - E tornarei as vossas festas em luto, e todos os vossos cânticos em lamentaçõesporei saco sobre todos os lombos, e calva sobre toda cabeça; e farei que isso seja como o luto por um filho único, e o seu fim como dia de amargurasJonas 3:5 - E os homens de Nínive creram em Deus; e proclamaram um jejum, e vestiram-se de saco, desde o maior deles até o menor. Jonas 3:6 - A notícia chegou também ao rei de Nínive; e ele se levantou do seu trono e, despindo-se do seu manto e cobrindo-se de saco, sentou-se sobre cinzas. Jonas 3:8 - mas sejam cobertos de saco, tanto os homens como os animais, e clamem fortemente a Deus; e convertam-se, cada um do seu mau caminho, e da violência que há nas suas mãos.Mateus 11:21 - Ai de ti, Corazin! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom, se tivessem operado os milagres que em vós se operaram, há muito elas se teriam arrependido em cilício e em cinza.

É comum que na igreja se ensine ao povo a jejuar por bênçãos, pedidos, projetos de vida. O argumento de quem defende um jejum como instrumento para alcançar benefícios está equivocado, pois o jejum é bíblico, mas não é uma doutrina bíblica, não é um mandamento, embora possa ser uma manifestação da doutrina de arrependimento ou uma expressão para com Deus sobre o um estado de alma contrito. O jejum pode ser a manifestação de uma oração de corpo e alma, uma intercessão elevada ao mais alto grau de comprometimento, como Davi em tristeza e arrependimento intercedendo pela vida de seu filho, fruto do seu adultério com Bateseba. Leia um segunda vez somente as palavras em negrito.

2 Samuel 12:16-23  -  E Davi implorou a Deus em favor da criança. Ele jejuou e, entrando em casa, passou a noite deitado no chão. Os oficiais do palácio tentaram fazê-lo levantar-se do chão, mas ele não quis, e recusou comer. Sete dias depois a criança morreuDavi, (...)  compreendeu que a criança estava morta (...) levantou-se do chão, lavou-se, perfumou-se e trocou de roupa. Depois entrou no santuário do Senhor e adorou. E voltando ao palácio, pediu que lhe preparassem uma refeição e comeu. Seus conselheiros lhe perguntaram: "Por que ages assim? Enquanto a criança estava viva, jejuaste e choraste; mas, agora que a criança está morta, te levantas e comes! " Ele respondeu: "Enquanto a criança ainda estava viva, jejuei e chorei. Eu pensava: ‘Quem sabe? Talvez o Senhor tenha misericórdia de mim e deixe a criança viver’. Mas agora que ela morreu, por que deveria jejuar? Poderia eu trazê-la de volta à vida? Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim".
O que causou a admiração dos conselheiros de Davi foi deste não haver jejuado em luto pela criança como era o costume.

A DIETA DE DANIEL NÃO ERA UM JEJUM MAS A OBSERVAÇÃO DA LEI DE MOISÉS

Daniel não estava triste, arrependido, desesperado ou em luto, quando decidiu não comer da comida do rei da Babilonia. Os manjares que Daniel e seus companheiros rejeitaram comer são os mesmos que eu e voce comemos todos os dias. São os alimentos, receitas, que levavam carne e não eram preparados segundo recomendava a lei de Moisés, portanto não eram kosher. É um erro acreditar que eles comeram somente verduras. A palavra traduzida como legumes ou verduras em nossas versões da Bíblia na verdade significa "aquilo que provém de uma semente". 
Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias; e que se nos dêem legumes a comer e água a beber. (Daniel 1:12)
A palavra traduzida por legumes é  זרען זרע - zêrôa‛ - da raiz זרע zaw-rah' que significa tudo aquilo que é originado de uma semente, ou seja frutas, verduras, cereais, inclusive o trigo.

O jejum de Daniel nada mais era que uma dieta kosher vegetariana, e que poderia ter incluído ovos, leite, frutas e vegetais.  O importante para Daniel era ter o controle de sua dieta para comer segundo os padrões da lei, evitando as bebidas e receitas com carne. O talmud dos judeus determinava a forma que um animal deveria ser morto e limpo e a maneira que o vinho e a cevada deveriam ser fermentados. Ao receber autorização para limitar sua alimentação à apenas "tudo aquilo que produz semente" e água, Daniel estava comendo conforme a lei e dessa forma evitava ferir sua conciência pessoal de fé. Se Daniel exigisse que os manjares fossem preparados conforme a lei seria denunciado em sua fidelidade à Deus e causaria prematuramente um conflito com os outros "cativos" também de outras nações que concorriam com Daniel e seus companheiros por uma posição permanente na corte do Rei. Observe que anos mais tarde Daniel foi denunciado por seus colegas na corte em Daniel 6.4-16 por fazer orações ã Deus e foi lançado na cova dos leões. 

QUAL O VERDADEIRO JEJUM DE DANIEL?

Daniel jejuou conforme seu costume e sua cultura, “se humilhando” diante de Deus por uma interpretação de uma visão que teve.
Daniel 10:2-3 - Naqueles dias eu, Daniel, estava pranteando por três semanas inteiras. Nenhuma coisa desejável comi, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com ungüento, até que se cumpriram as três semanas completas.
PORQUE ENSINOS DE CAMPANHAS, COMO O JEJUM DE DANIEL,
SE TORNAM DOUTRINAS?

A mão de obra que tornou possível o movimento chamado neo-pentecostal na igreja brasileira cresceu rapidamente pela falta de critério na formação de seus obreiros que formaram sua teologia a partir da repetição da liturgia observada nos cultos e não pelo estudo bíblico formal ou informal. Esses obreiros formados "a toque de caixa" criaram uma teologia inferior, baseada não na Bíblia, mas no interesse das pessoas as quais eles desejavam alcançar. O que as pessoas desejam possuir mais do que "coisas"? Se você disse, "amor", errou, a resposta na verdade é: STATUS. “Seja o seu neófito” se tornou a regra teologica do movimento.  Ser seu próprio cliente é absolutamente a melhor maneira de entender a mente de quem se quer alcançar. A teologia baseada na Bíblia se tornou um requerimento obsoleto e insignificante naquele contexto. Uma teologia focada em um Deus que distribui bens e milagres e provê status social se popularizou criando um "cult following" que mudou a face da igreja evangelica brasileira. Ao contrário do ensino de Paulo, a ideia desse movimento é manter seus seguidores "neófitos para sempre" em uma dieta de leite, e no melhor dos cenários, um mingau ralo.

Existe uma ojeriza do movimento neopentecostal em relação ao estudo formal das escrituras e uma supervalorização da chamada “revelação”, que nada mais é que uma introspecção sobre a leitura superficial de um texto bíblico, ignorando as regras da exêgese e hermenêutica por uma teoria sobre o texto que venha a atender ao argumento do pregador.

Desde o início dos anos 90, afim de saber das novidades, um desse apostolos, residente hoje em Brasilia, vem aos EUA todos os anos para saber das "novidades" e dos "moveres" do momento afim de importa-los ao Brasil. Daqui ele já plagiou livros (publicados nos anos 90) e introduziu doutrinas diversas no meio evangelico brasileiro, entre elas o movimento de cura interior e da maldição hereditaria. Eu já o encontrei por duas vezes aqui, na última ele estava de passagem para ir visitar a Igreja do Joel Osteen e checar o "mover" por lá.

Certa vez em Goiania, em um casamento interdenominacional celebrado em 1998, se reuniram na mesma celebração um teólogo, Pr. Marcos, com uma dessas figuras papais, chefe de uma grande denominação na cidade. Ao se comprimentarem o “apostolo” que já disputava a frequencia dos recém casados, falando aos ouvidos do Marcos, sussurrou “nenhum dos discípulos de Jesus estudou teologia” ao que o Marcos sussurrou de volta “Mas Ele era Jesus!” causando uma carranca no apostolo. Esse acontecido foi testemunhado ocularmente por meu cunhado e co-pastor do Marcos naqueles dias. Na minha opinião se equivocam os dois, embora o Marcos tenha razão em sua posição. Na verdade toda criança judia contemporanea de Jesus já havia lido a Bíblia por inteiro e passava horas por dia recitando porções inteiras das escrituras afim de memoriza-las já que não havia muitas copias da Bíblia disponíveis. Quando Jesus citava as escrituras todos entendiam e sabiam do que Ele falava.

As perguntas que cada obreiro deve fazer a si mesmo todos os dias é: “O que creio e prego é exatamente o que Jesus cria e pregava?” e “Como posso me aproximar mais ainda do pleno entendimento das escrituras sagradas?” Quem é intelectualmente honesto encontrará muito espaço para melhoras em sua teologia.  Em nossos dias, parte da liderança da igreja se dedica a pregar aquilo que dá certo, onde esta palavra certo significa “frequencia e finanças”, enquanto a outra parte mais intelectual se dedica a moldar o evangelho para caber nele ideologias de ordem social. Os dois grupos estão cada qual buscando o seu “cult following” por isso a teologia na igreja tem se tornado mediocre.

Wesley Moreira