É IMPOSSÍVEL ROUBAR UMA BÍBLIA, SEU VALOR SOCIAL PORÉM...

Os Gideões, organização cristã que fornecem Bíblias de graça ao Hoteis, afirmam que suas Bíblias jamais são roubadas dos quartos de hotel; eles consideram que as Bíblias retiradas dos quartos sem autorização, simplesmente foram tomadas por aqueles em necessidade, o que é considerado como um grande sucesso na missão do grupo de evangelizar através da distribuição da Bíblia.

Estima-se que cerca de 25 % das pessoas que se hospedam em quartos de hotel leem a Bíblia ali deixada sobre o criado-mudo. Estima-se que cada Bíblia tem uma vida útil de cerca de seis anos, o que significa que cada uma é lida por cerca de 2.300 pessoas que passaram por aquele quarto de hotel. O custo das Bíblias é pago inteiramente por doações feitas ao grupo, por indivíduos e igrejas em apoio a causa. Curiosamente a Bíblia foi o primeiro livro a ser impresso na história, e o custo acessível na impressão de Bíblias influenciou diretamente o custo do evangelismo praticados pelos Gideões. Mas nem sempre foi assim.

As primeiras Biblias eram feitas de pergaminhos produzidos do couro de carneiros e ovelhas. E para cada porção de texto era necessário um único pergaminho. Somente para a produção dos 5 primeiros livros da Bíblia eram necessários entre 62 e 84 pergaminhos, correspondendo entre 62 e 84 ovelhas ou carneiros, ou seja, um rebanho inteiro. Ao custo do rebanho, seu abate, e retirada do couro se adiciona o trabalho de preparação do pergaminho, cada couro deveria ser raspado, curtido e tratado de acordo com as especificações exatas.  A preparação dos pergaminhos levava muitos meses para ser concluída. A tinta deveria ser também produzida a parte e era obtidas através da fervura de óleos, alcatrão ou breu, e cera. Em seguida, essa mistura será combinada com a seiva de árvore e mel que depois eram secas e armazenadas. Antes da sua utilização, a tinta deveria ser misturada com um sumo extraido de um tipo de carvalho nativo da região. Esse processo de produção custava também muito tempo e dinheiro.

Depois era necessário pagar pelos serviços de um escriba que já possuisse um rolo da Bíblia disponível para a criação da cópia. Os escribas eram os especialistas no assunto, usavam a pena e a tinta com grande arte escrevendo cada letra cuidadosamente, segundo específicas diretrizes. Antes de começar a escrever o escriba deveria marcar as linhas sobre o pergaminho com pequenas ranhuras. O processo de copia da Bíblia pelo escriba durava um ano inteiro. Depois desse tempo as folhas de pergaminho eram então costuradas com tendões para formar um longo tapete que eram enrolados em dois suportes de madeiras preparados e decorados para esse fim. A maioria dos rolos, contendo somente os 5 primeiros livros, a Torá, tinham em torno de dois metros de altura e pesavam entre 9 e 12 kilos, o peso variava conforme a qualidade do couro usado.

Como voces podem facilmente perceber o processo de produção de uma única Biblia custava muito tempo e dinheiro, e mesmo com a tecnologia atual, o mesmo processo de criação da Bíblia não custaria menos que 30.000 dolares. O óbvio é que nos tempos bíblicos somente gente rica poderia pagar pelo luxo de uma possuir uma cópia da Bíblia em sua casa. Exatamente por isso a Lei de Moises ordenava que os Judeus viessem ao Templo, para as festas, pois durante esse periodo a Biblia era lida em voz alta pelos escribas ao povo em vários pontos da cidade. Quando não houvesse festas os escribas viajavam com os rolos de pergaminhos da Bíblia e organizavam leituras para o povo nas vilas. Cada vez que o escriba lia um trecho das escrituras o povo que em uma voz dizia amém, repetia o texto para memoriza-lo.

Como a Bíblia não era ainda dividida em capítulos e versículos, os escribas eram treinados a registrar os relatos e acontecimentos em forma de rima, e até mesmo de poesia, sempre com a intenção de facilitar a memorização dos acontecimentos. O primeiro capítulo de Genesis por exemplo está em forma de uma linda poesia que relata como Deus Criou os Céus e a Terra. Também porque os números eram mais difíceis de serem memorizados que os textos, era comum substituir números que marcavam certo periodo longo de tempo, mas que não possuissem significado ou importancia contextual, por uma expressão genérica, de fácil memorização.

Assim surgiu por exemplo o "quarenta dias e quarenta noites" que era uma expressão idiomática que significava "um periodo de tempo longo, muito longo". Como os tradutores da Bíblia não conheciam a fundo a cultura hebraica traduziram a expressão de forma literal, "quarenta dias e quarenta noites" o que não faz sentido algum para a mente ocidental. Esse fenômeno e chamado de “hebreismo”, e nossas traduções bíblicas estão cheia deles, é por causa do hebreismo que certos trechos bíblicos de dificil entendimento aparentam contradições. Por causa do hebreismo é comum ouvir alguém perguntar : “Por que tudo na Bíblia é 40 dias e 40 noites? Durante o Diluvio a chuva caiu por 40 dias e 40 noites, Moises ficou com Deus no monte durante 40 dias e 40 noites, Moises se prostou e jejuou perante o Senhor durante 40 dias e 40 noites, Elias viajou sem parar durante 40 dias e 40 noites e Jesus jejuou por 40 dias e 40 noites."

O fato de nossas traduções conterem hebreismos não significa que a  há erros na Bíblia, mas sim que há um abismo cultural e filosófico que foi ignorado por nossos tradutores, principalmente nas  versões Bíblicas produzidas na idade média, entre eles, a Vulgata.


Tudo o que descrevi acima tem a intenção de apontar para a centralização da Bíblia, sua leitura e memorização, segundo ordenado pelo próprio Deus e é perceptível na cultura hebraica. As crianças não somente eram ensinadas a ler e a memorizar grandes porções da Bíblia, mas eram ensinadas e estimuladas a debater sobre a Bíblia entre si. Lucas 2:40-50 descreve Jesus como um prodígio que debatia já com adultos. As crianças hebraicas contemporaneas de Jesus passavam o dia recitando e memorizando o que haviam ouvido da leitura feita pelos escribas.


Eram necessário pelo menos 10 homens para pagar por uma cópia da Bíblia para que fosse possivel a abertura de uma sinagoga na qual se reuniam os homens aos Sábados para a leitura e debate bíblico semanal e Jesus é relatado participando desse ambiente. A habilidade de Jesus de encontrar um texto nas escrituras foi ressaltada em Lucas 4:17 quando escritor usa a espressão "quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito". Pela importancia dada à leitura da Bíblia que o escritor do livro de Hebreus adverte aos crentes em 10:25 a “Não deixar de congregar, como é costume de alguns” pois a Bíblia só poderia ser lida quando todos estivessem presentes devido a escassez das copias disponíveis, razão pela qual também os primeiros cristãos, judeus, se reuniam com os judeus não-cristãos na sinagoga aos Sábados. As pessoas reuniam-se em torno das copias disponíveis.


O costume hebraico de ler as escrituras em voz alta ao povo contrasta diretamente com a celebração das missas em certos períodos da Igreja Católica, onde o sacerdote ministrava de costas para o povo, e em latim, deixando o povo na ignorancia do que estava sendo lido. A liderança da igreja evangelica atual tem por sua vez "dado às costas", não ao povo, mas à Bíblia, falando com o povo de uma moral relativizada e de doutrinas confusas que a Bíblia desconhece. Passamos das missas em Latim às cachorradas teologicas.

Concluindo, possuir a Bíblia era um luxo, suas copias eram limitadas, porém a Bíblia era reverenciada e centralizada. A ironia é que possuir uma copia da Bíblia hoje é algo muito barato. A Bíblia é o livro mais traduzido, mais impresso, mais lido, mais citado, mais disponível e menos seguido de nossos dias. A boa influencia da Bíblia em nossa sociedade ainda é o eco das gerações passadas que venceram a guerra cultural em nome da verdade. A Bíblia precisa voltar a ocupar um lugar central no culto e na vida cristã comum da mesma forma que ocupava um lugar central na vida dos crentes, fosse nas sinagogas, na igreja primitiva e na igreja pos-reforma, enfim, nas gerações anteriores. Se não houver uma reação da igreja de nossos dias no sentido de fundamentalizar a sua fé nos princípios bíblicos a Bíblia será o livro mais desvalorizado socialmente na próxima geração. 


Wesley Moreira





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Fontes pesquisadas:
Why There Are Bibles in Hotel Rooms – Emily Upton
Pergamena – How we make Parchment