LOUVANDO COM MÚSICA PLAGIADA

A letra original da música em questão não é apropriada para o louvor ou qualquer uso interno nos cultos. mas que bem nos fará louvar a Deus com uma paródia mal feita? Deus merece muito mais do que a mediocridade do plágio.

Tenho aversão ao plágio e tenho percebido que muitos dos grandes sucessos musicais internacionais dos anos 50, 60, 70 e 80 foram plagiados por cantores brasileiros famosos que destruíram as canções ao introduzir na melodia letras que são abominações comparadas às originais. Para minha infelicidade cantores evangélicos também o fazem e em muitos casos tem a ousadia de assumir a autoria da canção roubada. Não me refiro aos clássicos de hinos e músicas que possuem versões em português, falo da substituição da letra, da poesia ou mensagem original aproveitando-se somente da melodia sem que os devidos créditos sejam dados aos autores da melodia ou a música original citada.

Sim, os plágios brasileiros, bem como o caso que quero esplanar nesse artigo são paródias mal feitas de lindas canções. Seria pecado destruir o belo que foi criado por outro? Se for temos então um caso grave na indústria fonográfica evangélica brasileira. Mas quero apenas focar no nesse exemplo da música "Haleluiah" de Leonard Cohen, uma música secular que foi parodiada e cantada em muitos desses Shows de Calouros para crente na TV brasileira e assim introduzida como louvor na igreja brasileira.

Veja a letra original devidamente traduzida para português no video abaixo:




Como a letra original é um poema de uma tragédia bíblica a beleza da canção foi removida, restando apenas uma bela melodia e a universal expressão de louvor “haleluia” que foi o que atraiu os crentes a plagia-la. A letra de Haleluiah em português é um apanhado de jargões de louvor de cultos de quarta feira a tarde sem mensagem alguma, mas colocadas ali somenta para “encher a linguiça” entre as partes em que se canta “Haleluiah, Haleluiah ...”

Leonard Cohen o compositor da canção é Judeu da descendência de Levi, a palavra Cohen no seu sobrenome significa “sacerdote” em Hebreu, portanto o autor não está navegando em águas desconhecidos quando tenta transmitir na música sua mensagem sobre Davi.

A música questiona sobre a vida do criador do termo “Aleluia” Davi, que apesar de ter caído em pecado sobre ele a Bíblia diz “que agradou ao Senhor” e “homem segundo o coração de Deus”. O autor começa a música revelando que há um segredo que Davi conhecia sobre Deus. O primeiro verso começa assim:

“Eu ouvi que havia um acorde (musical) secreto
Que Davi tocou e agradou ao Senhor”

A composição segue usando metáforas sobre acordes musicais, (quarta, quinta, maior e menor) quando resume as circunstâncias daqueles momentos com Davi:

“a quarta, a quinta
a queda menor, o levantar maior
O rei perplexo compondo Aleluia”

O que Cohen está dizendo é que o “Aleluia” de Davi foi composto com significado após ele experimentar o resgatar de Deus depois de uma queda. A música fala da evolução de um relacionamento entre Davi e Deus por meio de uma metáfora.

“ a quarta, a quinta”

A quarta e quinta notas são a contagem dos 5 pecados de Davi no caso Batseba:


1. O rei Davi cobiçou a esposa de outro homem (II Samuel 11: 2-3).
2. O rei Davi cometeu adultério com Bate-Seba (II Samuel 11: 4).
3. O rei Davi cometeu o assassinato de Urias (II Samuel 11:14).
4. O rei Davi cometeu falso testemunho para encobrir seu adultério (II Samuel 11:10).
5. O rei Davi deu falso testemunho ao retratar que era um bom rei que se casou com uma viúva (II Samuel 11:27).

“a queda menor, o levantar maior”

Menor e Maior são intervalos entre as notas que seguem um padrão dentro da escala musical. A metáfora de Cohen aqui revela que a queda é menor e a redenção é maior, uma linda verdade Bíblica, livro em cujo Deus é o autor e ator principal. Enquanto socialmente recordamos das pessoas por suas queda e falhas, Deus é glorificado na redenção do pecador e aqui devemos focar nossa atenção. As notas menores são melodicamente tristes, chorosas, como um homem em pecado, por sua vez as notas maiores são alegres como a redenção de Deus aos homens. Está claro nas escrituras que Deus tem uma visão distinta do pecado do homem, Deus nos vê com misericórdia. Davi entendeu isso quando disse em I Crônicas 21:13 “Prefiro cair nas mãos do Senhor que nas mãos dos homens".

“Você a viu tomando banho do terraço
Sua beleza ao luar te derrubou”

A composição segue então descrevendo o pecado de Davi com Batseba 2 Samuel 11:2

“Ela quebrou seu trono, e cortou seu cabelo”

Além da profanação do trono de Israel há uma referência à queda de Sansão que teve seu cabelo cortado por Dalila depois do ato sexual. Nos dois casos o trono que era a fonte do poder de Israel e a força de Sansão eram concessões divina aos homens através de uma aliança. Sansão perdeu sua força quando seu voto de nazireu foi profanado. David foi desmoralizado e humilhado por seu filho Absalão mas seu foi trono foi preservado assim como Sansão também resgatou sua força quando seu voto foi reestabelecido. A mensagem é muito clara, sempre há lugar para arrependimento para aquele que busca a Deus mesmo na queda. Toque genial de Cohen ao mencionar Sansão na letra.

“E dos seus lábios ela removeu o Aleluia”

A culpa, o pecado de adultério removeram dos lábios de Davi a expressão de louvor “aleluia”.

“Você me diz que tomei o nome em vão
Mas se eu nem mesmo qual é o nome
E se realmente fiz, o que você tem com isso?”

A mensagem é a que Deus não julga como julga o homem. Aqui Cohen curiosamente cita o terceiro dos 10 mandamentos, o pecado de não tomar o nome em vão. Durante o período do exílio babilônico os escribas removeram da ortografia hebraica o sistema de sinais diacríticos usado para representar vogais ou distinguir entre pronúncias alternativas de letras da palavra Deus YHWH chamada de tetragrama, portanto, a verdadeira pronúncia ficou perdida no tempo. Cohen argumenta se não sei pronunciar o nome, como poderei ter pecado? Aqui está a defesa do direito de cada um de ser julgado por Deus e crescer com a experiencia. Para além das consequências de cada pecado, há um aprendizado durante a restauração que vem de Deus, esse aprender por experiencia está ausente no julgamento humano que é limitado de conhecimento. Se somente em parte sabemos, portanto nosso julgamento do homem é sempre parcial.

“Há um clarão de luz em cada palavra
Não importa o que você ouviu
O sagrado ou o aleluia quebrado”

Aqui Cohen diferencia entre palavras, cada uma tem sua luz, mesmo entre aleluias. Há aleluias e aleluias. O aleluia sagrado é daquele que por experiencia conhece a misericórdia de Deus e é distinto do aleluia quebrado, daquele que só conhece a Deus de ouvir falar.

“Eu fiz o meu melhor, não foi muito”

Na letra Davi está vestido do homem e não do Rei. Segundo a letra de Cohen, o mais magnifico sobre Davi não era a sua Santidade, mas sua capacidade de confiar em Deus para o resgatar de sua queda. Quem entre os homens ousará dizer diante de Deus no último dia algo acima do que foi expresso na frase acima?

“Eu não conseguia sentir, então tentei tocar
Eu disse a verdade, não vim para te enganar
E mesmo que tudo tenha dado errado
Eu estarei diante do senhor da música
Com nada na minha língua a não ser aleluia”

Como compositor Cohen calça bem os pés de Davi, o maior compositor Bíblico. Quando sentimentos não podem ser traduzidos em palavras, a música é o canal de expressão usado, ainda que sem letras, segundo a composição Davi sabe, que está “diante do Senhor da música” quem entenderá mais de sons de instrumentos que Ele e portando nada mais na sua língua além de um "Haleluiah" que é fruto de seu experimentar a misericórdia e o amor de Deus.

Assim que eu interpreto a letra dessa música. Afirmando ao mesmo tempo que o músico evangélico deve ouvir e praticar todos os gêneros de música para seu aprendizado e desenvolvimento musical, e sabendo que a criatividade vem a partir da influência de estilos e de bons trabalhos que apesar de seculares são obras primas, fazer cópia, praticar plágio ou criar uma paródia descarada de melodias de músicas que fazem ou fizeram sucesso é se auto coroar como mediocre e a igreja de Jesus não merece tal tratamento.

Wesley Moreira