TROQUE 10 MINUTOS DE SUA VIDA POR UM IPHONE

"Se houver um smartphone a que se pudesse carregar a bateria gastando apenas dez minutos do seu tempo de vida, pessoas o utilizariam", analizou certa vez Charlie Brooker, criador da série Black Mirror, definindo dessa maneira  a obsesssão  dessa nova geração pelas coisas dessa vida.

Pode até parecer exagerado, mas há pessoas dispostas a arriscar a sua vida para salva seu smartphone.

Uma adolescente de 16 anos, Ela Birchenough, demonstrou a teoria de Charlie. Ela ficou entalada em um bueiro de esgoto na Eaves Road, na cidade de Dover, quando tentava recuperar o telefone que havia caido ali dentro. “Durante o tempo que passou entalada ela estava mais preocupada na recuperação do celular que em ser retirada do bueiro", disse Tim Richards, de 22 anos, que passava pelo local e chamou os bombeiros que realizaram o resgate.


A pergunta que assombra é: Até onde alguém pode chegar para obter um "bem" nessa vida? O mais surpreendente é o pouco valor que a vida pela vida tem para essa nova geração que acredita que não é digna de ser vivida sem que certos padrões sociais sejam alcançados. Observe que eu me não me refiro ao verbo sobreviver, o que indica o mínimo básico para o mantenimento da vida como casa, alimento e segurança e não ainda aos direitos humanos inalienáveis, o direito à propriedade, à liberdade de pensamento e expressão, e de crença. Embora alguns sistemas de governo se dediquem a prover casa, alimento e segurança a um grupo ao custo do direito à propriedade, à liberdade de pensamento, de expressão e de crença de outros, meu foco porém é outro. Se a vida perde o seu valor a cada geração que passa, não me surpreende que menos interesse haja ainda sobre a vida eterna na mensagem da igreja ao mundo.

Acredito que os últimos evangelistas de renome que pregaram sobre a vida eterna foram Billy Graham e David Wilkerson. O tema da vida eterna vem perdendo espaço para mensagem mais imediatistas, edonistas de fato desde 1960 com Oral Roberts, o grande pioneiro do movimento de curas sinais e milagres como grande mensagem a ser pregada, acima do arrependimento e vida eterna.

Porque a mensagem da vida eterna perdeu o valor para o crente em relação a pregação de curas e milagres?  Cada indivíduo tem uma escala de valores diferente, e o que é valioso para um pode não valer nada para outro. Daí o valor  de um determinado bem varia no tempo. As pessoas dão mais valor a um bem no presente do que o mesmo bem, ou outro melhor no futuro, posto que o tempo é escasso, e todos querem “alcançar seu milagre”, logo a benção se torna um bem econômico que é explorado principalmente pelos televangelistas.  Os crentes ao agirem em fé priorizam determinadas bençãos e quanto mais cedo puderem alcançá-las, melhor. Crer na vida eterna demanda tempo, toda uma vida em fé. Os milagres por sua vez, com seus inúmeros "pontos de contato", por mais falsos que possam ser, são entregues imediatamente. A coisa funciona mais ou menos assim, “imagine uma pessoa que desde as 4 da tarde espera pelo jantar quando decide se empanturrar com os tira-gostos mais façeis de adquirir e vem a perder o apetite indo dormir sem provar do prato principal.” As promessas de milagres esvaziaram a igreja de seu apetite pela vida eterna e a volta de Jesus.

Por isso as chamadas evangelisticas se assemelham muito aos anúncios de promoções na venda de bens por varejistas, enfatizando que o espectador “será curado NESSA NOITE, receberá HOJE seu milagre, irá receber AGORA etc..”
“As coisas são diferentes do que quando éramos crianças, em nossa sociedade atual a maioria dos pastores descobriram que eles vão "capturar mais moscas” usando mel do que com vinagre.”– Barry Young
Quem como eu, já assitiu muitas campanhas de milagres, analizando a mensagem dos evangelistas onde “todos podem ser abençoados” e contraste dos que realmente o são, e aqui faço questão de retirar os que testemunham de milagres que não ocorreram, a impressão que se tem é que Deus faz um sorteio lotérico para determinar quem vai “receber” dado ao número baixíssimo e passível de investigações dos ditos milagres. Pois os crentes aprenderam dos evangelistas que a fé é um mecanismo de probabilidades, onde há uma chance de que alguém creia o suficiente para “receber”, sendo o pregador, charlatão ou não, escusado do resultado. 

Deus não joga com dados, dizia o judeu Albert Einstein em defesa de sua descrição do universo. A maioria das pessoas que vão nos cultos de milagres creem que terão a chance de “receber” alguma coisa, doutra sorte ficariam em casa. "Mas e se eu não for ao culto e ficar fora da benção?" É um risco a correr, de acordo com a mensagem dos evangelistas "pois este poderia ser seu dia da sua benção," afirmam, "seu dia de sorte", mensagem que produz uma ansiedade por frequência nos seguidores. Já perceberam que sempre quem não foi ao culto perdeu alguma coisa?

Outro problema na teoria da fé ensinada pelos evangelistas está no fato de que a fé em Deus é diferente da fé em qualquer coisa. A fé em qualquer coisa e em qualquer um, seja em profeta, ungido, apostolo, água do Jordão, martelo da justiça, arca do tabernáculo, e qualquer outra fé senão a fé em Deus é idolatria. No Antigo Testamento há inúmeros de relatos sobre fé posta em ídolos e falsos profetas. Muitos dos ídolos dos cananitas foram "rebatizados" mediante a influencia de Israel pós a conquista de canãa, um panteão onde Elohim encabeçava outros deuses cananitas, incluso Baal, foi encontrado entre os achados arqueológicos na palestina. Seria a fé naquele Elohim Cananita a mesma que ao Elohim que apareceu a Abraão? Simplesmente não. Provar as mensagens e colocar sob testes os pregadores é algo que igreja deveria ter aprendido com os contemporâneos de Jesus, e com os irmãos de Bereia. 

Somos chamados para crer na palavra DELE, de Deus, e não na palavra de algum talentoso evangelista empolgado que faz uma chamada carismática no radio ou na TV. Posso passar toda a minha vida crendo que vou poder voar, não havendo um poder maior para sustentar minha autentica fé, estarei  incapacitado de voar pelos meus limites biológicos. A fé por sí mesma não tem poder algum, salvo quando usada para seduzir e enganar. O mesmo equivoco observamos nos ensinos da igreja sobre oração, ao contrário do que muito se ensina e também se canta, a oração não tem poder algum. Jesus disse que não é pelo muito orar que seremos ouvidos, (Mateus 6:7) o poder na oração pertence a quem ouve a oração e não é da oração em si. Orar por orar, ou com muita fé de nada lhe valerá se a oração não for direcionada a Deus e o seu pedido não estiver sustentado em Sua promessa.

Em relação aos sinais estes acontecem, segundo a promessa de Jesus em (Marcos 16:17-18) somente durante a imaculada pregação do verdadeiro evangelho, ou seja, a mensagem que fala do pecado, da realidade do inferno, da expiação de Cristo, do arrependimento e da promessa da vida eterna. Ora essa é exatamente a mensagem que a igreja abandonou para pregar exclusivamente sobre a possibilidade dos milagres. Os milagres, segundo a Bíblia, são apenas o testemunho sobrenatural da parte do Espírito Santo de que a mensagem que está sendo pregada é verdadeira, ou seja, conforme (João 16:14) o Espirito Santo veio para honrar a Jesus e Sua obra e todas as vezes que a mensagem de Jesus é pregada em sua integridade, milagres acontecem, essa é promessa, em nisso devemos crer.  O próprio Jesus abordou o tema e por vezes pediu ao Pai que O atendesse a oração como no caso da ressurreição de Lázaro, ( João 11: 41-43), em outra ocasião não pôde realizar muitos milagres por causa do povo (Mc 13:57-58).

Eu creio em milagres, mas não creio no que vemos diariamente na TV e em certas igrejas. Não creio na instrumentalização e corporativação dos dons espirituais realizados por certas denominações, algo que sempre termina em fraude e mentira.

Oremos para que pregadores independentes começem a pregar que o maior milagre possível ao homem é a vida eterna, o Olam Haba, o mundo vindouro aonde habita a justiça, e que para alcança-la é necessário fé para se arrepender e nascer de novo em Jesus Cristo.

A maior fé é aquela que prevalece mediante as adversidades e a maior adversidade é o tempo.


Wesley Moreira